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Pesquisa em 160 farmácias mostra que balconistas e farmacêuticos enganam e empurram similares bonificados no lugar dos genéricos das receitas

O similar Ampicilab fabricado pelo laboratório Multilab, que pertence ao multinacional Japonês Takeda, foi empurrado como “genérico” na maioria das farmácias pesquisadas 

Disparate nos preços comprova a propina que favorece a enganação nas farmácias (veja o vídeo)

Diferença absurda entre preços de genérico e similar do mesmo laboratório comprova a existência da propina que favorece e incentiva a enganação e empurroterapia nas farmácias: o Ampicilab 500mg com 10 cápsulas é vendido a R$ 28,00. Já o Ampicilina genérico 500mg com 10 cápsulas do mesmo laboratório (no caso o Multilab) é vendido por R$ 14,00. Dessa forma balconistas e farmacêuticos trocam o genérico pelo similar para embolsar a propina que está embutida no preço extra do remédio.

Trocação dos remédios das receitas e enganação nas farmácias

A receita utilizada na pesquisa solicita Ampicilina 500mg para uso três vezes ao dia por sete dias, ou seja, são necessários 21 cápsulas do antibiótico para o correto tratamento. O Ampicilina mais barata conforme pesquisa na internet é do Pratti Donaduzzi e a caixa com 21 cápsulas (quantidade certa para o tratamento) custa certa de R$ 19,00. Já a caixa do Ampicilab empurrado na maioria das farmácias só tem 10 cápsulas e são necessárias duas caixas para o tratamento incompleto (já que faltaria uma cápsula). Vendida a R$ 28,00 a caixa, o tratamento sai por R$ 56,00, praticamente três vezes a mais que o preço do genérico mais barato e nunca oferecido em nenhuma das 160 farmácias pesquisadas. Mesmo quando solicitado o Ampicllina do Pratti Donaduzzi, os balconistas e farmacêuticos não tinham o remédio para vender. A incensatez, falta de ética e desonestidade é tanta nas farmácias que uma farmacêutica é gravada com câmera escondida tentando empurrar três caixas do Ampicilab com 10 cápsulas. Ela insiste em vender as três caixas do remédio bonificado para obviamente meter a mão no bolso do falso paciente “porque na caixa só tem 10 cápsulas e o tratamento pede 21”. O mais justo, ético e honesto seria a profissional oferecer uma opção melhor para o paciente, ao invés para o bolso dela e o caixa da farmácia. Ou então, mesmo que a meta da farmácia seja socar produtos bonificados do Multilab goela abaixo do paciente —para não dizer outro orifício— pelo menos utilizar uma caixa do antibiótico para venda avulsa ou fracionada de cápsulas para completar o tratamento proposto pelo médico e atender o paciente consumidor cliente da farmácia. Esse método de venda fracionada para antibióticos, aliás, é recomendo pela Anvisa.

Troca do genérico por similar bonificado acontece na maioria das farmácias pesquisadas (veja showslide)

Conforme mostra a pesquisa de campo gravada com câmera escondida, na maioria das 160 farmácias pesquisadas os pacientes são enganados por balconistas e farmacêuticos desonestos que empurram similares bonificados no lugar dos genéricos prescritos pelos médicos. Ou seja: o consumidor compra gato por lebre porque o remédio genérico da receita é trocado de forma enganosa por similares que oferecem melhores vantagens comerciais para quem vende o produto.

Empurrômetro de balconistas e farmacêuticos acontecem em 80% das 160 farmácias pesquisadas em SP, PR e RJ

O Ampicilab bonificado empurrado nas farmácias custa três vezes mais que o genérico mais barato. Pior para a saúde e bolso do paciente é que o Ampicilab e outros 20 remédios do Multilab já foram interditados recentemente por irregularidades na fabricação

O depoimento de farmacêutica gravado com câmera escondida para documentário que investiga fraudes no setor farmacêutico retrata muito bem o descaso com que são tratados os consumidores e pacientes nos balcões de farmácias. Para a profissional desonesta e antiética (veja a transcrição do depoimento), “não é porque o remédio é mais caro que ela vai deixar de vender!” Sobre a qualidade dos remédios oferecidos nas farmácias ela argumenta puxando a sardinha para o seu lado: “Se a Anvisa deu autorização para fabricar esses produtos por que vou deixar de vender?” No entanto, o registro na Anvisa não é garantia de qualidade porque não é praxe da Agência Nacional de Vigilância Sanitária realizar testes nos medicamentos nem por amostragem. Um exemplo de má qualidade de medicamentos no mercado são as listas de interdição da Anvisa. Nos últimos anos milhares de medicamentos foram interditados por desvio de qualidade na fabricação. Um deles, por exemplo, é justamente o Ampicilab, que aparece entre os mais empurrados nas farmácias.

Ampicilab já foi interditado pela Anvisa por desvio de qualidade

Ampicilab 500 mg cápsula Multilab – Lote 804713, (Val. 04/2010) – foi interditado pela  Resolução Específica da Anvisa nº : 03688/2009 – Motivação: Resultado insatisfatório no ensaio de Aspecto.

O laboratório Multilab teve vários medicamentos interditados por desvio de qualidade nos últimos anos – veja relação:

Dorsanol solução 200mg – lote 343083, com data de validade de 01/02/2018, fabricado pela empresa Multilab Indústria e Comércio de Produtos Farmacêuticos LTDA. A Anvisa suspendeu a distribuição, comercialização e uso do medicamento (01/03/2017) que apresentou resultados insatisfatórios para o ensaio de características organolépticas (cor). A Resolução RE nº 535 determina ainda que a empresa recolha todo o estoque do mercado. Suspensão de todos os lotes dos medicamentos fabricados pela Multilab (13/05/2015): Suspensão da distribuição, comercialização e uso e o recolhimento do estoque existente no mercado por desvio de qualidade (resultado insatisfatório no teste de teor durante o monitoramento do estudo de estabilidade de longa duração):

–   Ocylin 250mg 60ml

– Ocylin 250mg 150ml

– Amoxicilina Triidratada 50mg 60ml

– Amoxicilina Triidratada 50mg 150ml

Reutrite (diclofenaco potássico) 50 mg: todos os lotes – Suspensão da distribuição, comercialização e uso e o recolhimento do estoque existente no mercado por desvio de qualidade: 25/02/2015 (produto apresentou resultados fora das especificações no ensaio de dissolução).

Atenolab 50mg (lote MF0105) comprimidos (interdição em 16/12/2014) – Multilab Foi realizada uma auditoria na empresa fabricante, em que ficou comprovada a fabricação e distribuição, antes da aprovação da petição pós-registro, do medicamento.

Buprovil (Ibuprofeno) 20mg suspensã (Multilab) – alguns lotes do produto apresentaram teor de princípio ativo fora da especificação. A empresa deve recolher os produtos do mercado (14/10/2013).

Menocol 40mg comprimidos (Multilab) – Suspensão da distribuição, comercialização e uso e o recolhimento do estoque existente no mercado por desvio da qualidade – a embalagem primária (blister) do medicamento identifica como sendo de concentração de 80 mg (6/07/2015 – validade: 04/2017).

CIMETILAB (Multilab) comprimidos de 200 e 400 mg. Lote, fabricação e validade: Todos – Observação: Suspensão da distribuição, comércio e uso e o recolhimento das unidades existentes no mercado.

CIMETIDINA (Multilab) comprimidos de 200 e 400 mg. Lote, fabricação e validade: Todos – Observação: Suspensão da distribuição, comércio e uso e o recolhimento das unidades existentes no mercado. Desvio de qualidade – resultados de dissolução fora da especificação farmacopéica no estudo de estabilidade.

Miclox (Multilab) comprimidos revestidos  – Resolução Específica nº : 03838/2013 – todos.

Tartarato de Metroprolol (Multilab) – comprimidos revestidos (todos) – Resolução Específica nº : 03838/2013.

Buprovil 20mg suspensão (Multilab) – Lotes fabricados ANTES de abril de 2013 – Resolução Específica nº : 03429/2013.

Buprovil 20mg suspensão (Multilab) – Todos os lotes que se encontram dentro do prazo de validade. Resolução Específica nº : 06041/2010.

Cefagel (cefalexicina monoidratada) – Multilab – Resolução Específica nº : 04288/2010. Todos os lotes.

Ocylin 250mg suspensão – Multilab – Lote 70571 Fab. 01/02/2007 Val. 01/02/2010. Resolução Específica nº : 04061/2009.

AMPICILAB 500 mg cápsula Multilab – Lote 804713, Val. 04/2010 – Resolução Específica nº : 03688/2009 – Motivação: Resultado insatisfatório no ensaio de Aspecto

Spectolab suspensão – Multilab – Lote 902252 – Resolução Específica nº : 01128/2009. Motivação: Algumas unidades foram indevidamente acondicionadas em embalagem de Spectolab Adulto.

OCYLIN (amoxicilina) 500mg – Multilab – Lote 709456 (Fab. 08/2007, Val. 08/2010). Motivação: Desvio de qualidade relacionado ao Teor de Amoxicilina.

Multilab não comprova recolhimento de seus medicamentos interditados das prateleiras das farmácias

Com atendimento restrito à portaria do laboratório Multilab, foi solicitado ao estagiário de marketing da companhia a apresentação dos laudos de recolhimento e destruição dos medicamentos interditados pela Anvisa nos últimos cinco anos. O estagiário de marketing porta voz da empresa se esquivou argumentando “que tal documentação é sigilosa e não pode repassar para divulgação pública”. No entanto o sigilo só existe porque o laboratório obviamente não pode comprovar o recall e destruição dos medicamentos interditados.  Mesmo porque a informação sobre o recall é obrigação do fabricante e um direito da população que deve ser informada sobre as irregularidades em medicamentos existentes no mercado.

Farmácias não receberam visita de representante do Multilab para recall

Conforme pesquisado em farmácias do Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul (inclusive em São Jerônimo, que é município sede do laboratório), praticamente nenhuma delas recebeu visita de representante da Multilab, Anvisa ou vigilância sanitária para promover o recolhimento qualquer tipo de medicamento interditado nos últimos anos. Também a vigilância sanitária municipal de São Jerônimo disse não ter recebido qualquer comunicado da Anvisa ou da vigilância sanitária estadual para fiscalizar o Multilab quanto a correta realização do recall de seus produtos conforme determina a legislação sanitária.

Legislação obriga laboratórios recolher medicamentos interditados

O parágrafo único do artigo 144 do Decreto 79.094/77, que regulamentam o recolhimento de medicamentos (Lei 6.360/76) diz que é obrigação da empresa fabricante promover o recall os produtos interditados: “fica obrigada a proceder a imediata retirada do produto do consumo, sob pena de configurar infração sanitária e penal”. Também conforme a lei, o laboratório é obrigado a fazer o recall dos medicamentos interditados junto às farmácias e consumidores. O fabricante ainda é obrigado a informar toda a população, através da mídia, sobre o recall dos seus produtos, fato esse que nunca acontece.

Multilab se esquiva de falar sobre o desvio ético da troca enganosa do genérico da receita pelo bonificado Ampicilab

Procurado no município de São Gerônimo, na sede da empresa, nenhum representante do Multilab quis se manifestar sobre a prática antiética, desonesta e criminosa (conforme o Código dos Consumidores) envolvendo o seu medicamento. Segundo a opinião do estagiário de marketing que falou pela empresa, “o Ampicilab pode ser trocado pelo genérico porque apresenta a mesma equivalência”. No entanto, desinformado sobre as leis que normatizam a produção, dispensação e prescrição de medicamentos, o estagiária não sabe que a Anvisa é clara ao proibir a troca de genéricos por similares. Principalmente quando o engodo empurrado aos pacientes nos balcões de farmácias custa três vezes a mais que os genéricos mais baratos. Sem autorização para falar com o farmacêutico responsável técnico do laboratório, o estagiária simplesmente disse que o Multilab não é responsável pelas trocas feitas nas farmácias. No entanto, a bonificação paga pelo fabricante instiga, incentiva e favorece a venda enganosa de seus produtos.

Discrepância nos preços comprova o grau da bonificação

O similar Ampicilab 500mg com 10 cápsulas custa R$ 28,00. Já o Ampicilina genérico 500mg com 10 cápsula do mesmo laboratório (com embalagem idêntica, variando apenas as informações para medicamento genérico) custa nas farmácias cerca de R$ 14,00, ou seja, a metade do preço. Fica óbvio que o valor extra embutido no produto similar —e tirado do bolso dos consumidores tachados de otários— engordam os salários de balconistas e farmacêuticos e a conta bancária das farmácias.

Preço do Multigrip varia de R$ 8,00 a R$ 25,00

Outro exemplo da propina embutida nos preços de remédios bonificados é o antigripal Multigrip, carro-chefe do Multilab e um dos antigripais mais empurrados nas farmácias brasileiras: na maioria das farmácias o valor médio da caixa com 20 comprimidos custa entre R$ 20,00 e R$ 25,00 rais. Já o mesmo produto é “queimado” por apenas R$ 8,00 pela rede Ultrafarma (conforme anúncio no site oficial da empresa). Para vender a esse preço e ainda obter lucro, significa que o preço de custo do produtos bonificado sai por menos de R$ 8,00 das mãos do fabricante. Esse disparate mostra o quanto os consumidores são passados para trás e tratados como verdadeiros otários.

O Multilab foi comprado pelo gigante Taketa em 2012

O grupo japonês Takeda comprou o minúsculo laboratório nacional Multilab em 2012. Quase um fabricante fundo-de-quintal, o Multilab funciona na periferia do pequeno São Jerônimo, município do interior do Rio Grande do Sul. Comprado por R$ 500 milhões (informações divulgadas na imprensa), a multinacional amargura prejuízos e tenta empurrar o fabricante dos B.O’s  Ampicilab e Multigrip a quem oferecer pelo menos R$ 100 milhões. Dão conta na imprensa que o prejuízo de R$ 400 milhões da Taketa com a aquisição do Multilab é uma é um imbróglio regulatório referente ao registro do Multigrip na Anvisa. O Multigrip é um beózão e principal remédio fabricado pela Multilab empurrado a torto e a direita para gripes e resfriados nos balcões de farmácias de Norte a Sul do país. Se o Multigripe é o melhor produto do Multilab então não há nada de bom para se esperar desse laboratório. Ao que parece a Takeda, que é a maior companhia farmacêutica do Japão, comprou o Multilab de olhos vedados. Por outro lado, a multinacinal fatura alto no Brasil onde começou operar em 2011 ao adquirir a operação global da suíça Nycomed, que era dona de marcas como a Neosaldina. O Neosaldina, aliás, é um dos analgésicos mais vendidos no país para enxaqueca e só perde para o Dorflex que ocupa o primeiro lugar em vendas. Esses dois medicamentos são bons e baratos e nunca são empurrados pelos balconistas e farmacêuticos justamente por não ter aquele “beózinho” embutido em seus preços. O que acontece muito (veja vídeo em pesquisa onde é solicitado Dorflex e o balconista empurra um beozão) é balconistas e farmacêuticos tentarem trocar esses remédios por similares bonificados quando são receitados ou solicitados nos balcões das farmácias.

Multigrip empurrado para gripe e resfriado nas farmácias de norte a sul do país é o principal produto do multilab

O Multigripe é empurrado por balconistas e farmacêuticos pelo preço médio de R$ 22,00 – prova da propina embutida no preço do B.O é que a rede Ultrafarma vende o produto por até R$ 8,00
O apracur é o concorrente direto do Multigripe: o remédio para gripe e resfriado é um dos campeões de vendas nas farmácias. O medicamento custa em média R$ 7,00, não paga bonificação e dificilmente é empurrado por balconistas e farmacêuticos. Por isso, no jargão de farmáfia o Apracur é tido como produto “ético”.

A bonificação e a empurroterapia trapaceiam os pacientes

A antiética política comercial da bonificação favorece e incentiva no balcão da farmácia a prática desonesta da empurroterapia. Além do mais, a propina oferecida por laboratórios a balconistas e farmacêuticos favorece também a criminosa prática da troca enganosa do medicamento da receita por similar bonificado. O golpe é muito comum e acontece na maioria das farmácias (em 70% das 160 farmácias pesquisadas) conforme mostra a pesquisa realizada para o documentário sobre fraudes no setor farmacêutico.

A  troca do remédio interfere no tratamento

A empurroterapia e a troca enganosa interfere diretamente na prescrição médica. Especialistas do setor de saúde e a classe médica reconhecem e alertam que a bonificação de medicamentos prejudica o tratamento da doença, além de lesar o bolso do consumidor paciente.

“Além de ser uma infração sanitária grave, a prática da empurroterapia é uma fraude e um crime previsto no Código de Defesa do Consumidor”, alerta o médico e coordenador da Sobravime José Ruben de Alcântara Bonfim

“É muito comum no Brasil um paciente entrar na farmácia com uma receita de produto A e venderem um produto B. Isso não acontece nos Estados Unidos e em nenhum país da Europa. A prática da empurrorapia é uma infração grave sob todos aspectos, sejam eles éticos, comerciais e principalmente de saúde, porque no geral a prática só beneficia as empresas e os maus profissionais que praticam a fraude”, diz o médico e coordenador-executivo da Sociedade Brasileira de Vigilância de Medicamentos (SOBRAVIME) José Ruben de Alcântara Bonfim, que ressalta: “Isto, além de ser uma infração sanitária grave, trata-se de uma fraude e de um crime previsto no Código de Defesa do Consumidor. O paciente e consumidor de modo geral não deve aceitar esse tipo de manipulação de forma nenhuma”.

“Conforme a Resolução para medicamentos intercambiáveis, a Anvisa autoriza a troca do medicamento de marca ou referência da prescrição médica por um similar equivalente. Mas a troca pelo similar não pode ser feita quando o medicamento da receita for genérico. O farmacêutico ou balconista pode trocar o medicamento da prescrição, quando de marca ou referência, pelo seu equivalente genérico. Mas não pode trocar o genérico por um similar nem mesmo quando este é equivalente”, observa José Ruben que também é doutor em Ciências pela Faculdade de Saúde Pública da USP.

“A prescrição do médico tem que ser obedecida. Não existe nada que justifica a troca da prescrição por um leigo que atende no balcão da farmácia ou drogaria. É uma interferência grave que desqualifica o tratamento da doença proposto pelo médico e em consequência coloca em risco a saúde e a vida do paciente. A única possibilidade possível é a troca do medicamento de referência por um correspondente genérico”, completa o coordenador da Sobravime.

Testes mostram que cerca de 17% dos medicamentos similares bonificados apresentam resultados insatisfatórios nos testes 

Os resultados da tabela acima mostram que não basta um medicamento ter registro na Anvisa para ser confiável. Além do mais, os testes acontecem de forma muito parcial e não se tem notícia dos resultados dos testes da Proveme (Programa de Verificação em Medicamentos ligado à Anvisa) desde 2016). Mesmo porque os Laboratórios Centrais dos Estados (Lacens), responsáveis pelas análises estão completamente sucateados. Nos Lacens dos estados do Paraná e São Paulo, por exemplo, os últimos programas para verificar a qualidade de medicamentos através de testes por amostragem foram realizados há mais de oito anos. O Lacen do Paraná, por exemplo, não realiza testes para averiguar a qualidade de medicamentos nem para atender à solicitação do Ministério Público (que pediu análise em amostras de medicamentos do Pratti Donaduzzi em junho de 2015 e até hoje está sem respostas).

troca enganosa de genéricos por similares 

A pesquisa simulou a compra de medicamentos genéricos (o atendimento foi gravado com câmera escondida) em 160 farmácias do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. O objetivo é mostrar que quase sempre os consumidores não têm opção pela compra de remédios mais baratos e de laboratórios mais confiáveis. O pior, e o golpe é mostrado com imagens da câmera escondida, é que em 70% das vezes os balconistas e farmacêuticos fazem a troca do medicamento genérico por produto similar sem ao menos avisar ao consumidor.

A trocação da receita nos bastidores das farmácias

A prática enganosa é tão comum que nas farmácias até existe um jargão para o golpe: é a trocação da receita. “Não pode ter vergonha de trocar!” (recomenda o gerente de uma rede de farmácia que foi investigada para o documentário “Medicamento bom pra otário) “Passa óleo de peroba na cara e manda bala!” (diz o gerente ao jornalista que se passava por balconista que gravava a conversa)

Carne de pescoço por picanha em farmácias

Uma analogia do açougueiro e mecânico desonestos com o atendente de farmácia (seja ele balconista ou farmacêutico). No açougue, o consumidor compra uma picanha e paga pela picanha o preço da picanha (pode acontecer do consumidor ser trouxa e levar músculo no lugar da picanha, mas é muito difícil). Na oficina é praxe todo mundo ficar antenado no conserto do carro e na a reposição da peça, para não ser trocada por produto de segunda linha ou recondicionada.

Em farmácia o esquema é bem diferente: os consumidores pacientes confiam cegamente na bandeira do estabelecimento, nos balconistas e nos farmacêuticos (sempre sorridentes e prestativos) e nunca desconfiam das arapucas armadas no balcão para pegar consumidores tachados de otários. Na farmácia, o paciente pode até chegar com uma receita de picanha (no caso, a prescrição de um medicamento de marca ou referência ou, como dito no jargão de farmácia, um remédio ético, ou ainda um nome genérico), mas ainda assim corre o risco (e muito!) de comprar carne de pescoço por picanha: porque acontece (e muito!) de o remédio da prescrição ser trocado  por produto bonificado (na maioria das vezes mais caro, conforme mostra a pesquisa) de origem e qualidade duvidosas. O pior de tudo é que em farmácias, na maioria das vezes, a carne de pescoço é mais cara que a picanha (a pesquisa mostra que os similares empurrados custam até três vezes mais que os genéricos receitados). E o golpe acontece sem o confiante e desavisado paciente ao menos perceber que está sendo passado para trás e feito de otário. 

Farmacêutico ensina a trocar receita

O objetivo da pesquisa é justamente mostrar que a troca enganosa do medicamento da receita por produto que oferece lucro maior vantagem para o comerciante acontece na maioria das farmácias. E não são apenas balconistas que praticam o golpe para receber maior bonificação, também a maioria dos farmacêuticos vendedores trapaceiam os pacientes para levar vantagem.

No vídeo gravado com câmera escondida em uma das 8 redes de farmácias investigadas em São Paulo e no Paraná para o documentário “Medicamento bom para otário: a rota das fraudes” (o ex-balconista, jornalista e diretor do documentário voltou a atuar na antiga profissão para filmar e mostrar como as fraudes acontecem nos bastidores de uma farmácia) o farmacêutico responsável técnico pelo estabelecimento (no registro da contratação mas puramente vendedor na função) ensina o “balconista” novato a trocar o medicamento da receita por produto bonificado. Veja a gravação:

No Vídeo abaixo farmacêutico empurra Sildenafila e vitamina bonificadas para adolescente de 15 anos:

A prescrição é trocada na maioria das farmácias

Conforme mostram as gravações com câmera escondida, os farmacêuticos responsáveis pelos estabelecimentos estão mancomunados com laboratórios, donos da farmácia e balconistas. Na maioria das vezes eles agem de forma desonesta e antiética para enganar os pacientes e trocar os medicamentos prescritos pelos médicos por produtos que oferecem melhores vantagens comerciais apenas para quem vende.

Por causa dos remédios “propinados”, os consumidores quase nunca têm opção de escolha de compra do remédio  que melhor lhe convém pelo preço e qualidade. Leia abaixo a transcrição da gravação com uma farmacêutica dona de farmácia no Paraná que fica irrita quando é recusado os remédios similares oferecidos e solicitados genéricos de laboratórios com preços melhores.

Farmacêutica troca a prescrição e fica irritada quando o falso paciente solicita genéricos mais baratos

Na prescrição dos genéricos Ampicilina 500mg 20 cápsulas, Diclofenaco Potássico 20 drágeas e Dipirona gotas ela oferece os seguintes produtos:

-Ampicilina 500 mg 24 cáp. (genérico) EMS  – R$ 36,00
-Fenaren 20 dg – (similar) União Química  – R$ 14,00
-Dipirona 10ml  –  I.N.Q  – R$ 6,80

Desconfiança e pesquisa são melhores remédios

Provas de que a desconfiança no balcão de farmácias e as pesquisas de preços antes de comprar os medicamentos são sempre os melhores remédios, são as diferenças de preços entre os mesmos produtos existentes no mercado. Porém, conforme mostra a pesquisa, os genéricos mais baratos são sempre os mais difíceis de serem encontrados.

-Ampicilina 500 mg 21 cápsulas – Pratti Donaduzzi  – R$ 19,00
-Diclofenaco Potássico 20 dg – Medley  – R$ 8,00
-Dipirona 20ml  –  EMS  – R$ 1,99

Preços dos medicamentos de marca ou de referência:

– Amplacilina 500mg 2 cxs c/12 cáp. Eurofarma – R$ 44,00
– Cataflan (Referência) 50mg 20 dg – Novartis – R$ 24,68
– Novalgina (referência) 20 ml – Sanofi – R$ 13,00

Farmacêutica se irrita ao ser questionada sobre troca:

Depoimento da proprietária e também farmacêutica responsável técnica da drogaria se irrita ao solicitar genéricos mais baratos.

“Só trabalhamos com esses laboratórios! Se aparecer uma receita indicando nome de laboratório, eu ligo na hora para médico e meto a boca, porque isso é discriminação. O médico não tem o direito de indicar nenhum laboratório. Quanto ele receitar um medicamento com nome genérico, ele vai ter que aceitar o que a gente tem pra oferecer, tá!? Ele não pode indicar nenhum nome de laboratório. Eu sou farmacêutica e sei o que é bom e ruim. Quando chega um vendedor que tem várias marcas de ampicilina, é lógico que vou comprar do que der mais lucro pra mim, que dá maior margem de lucro. Se alguém chegar e pedir uma ampicilina, é lógico que eu vou vender da marca que eu tenho, tá?! Se o laboratório foi autorizado a produzir esses negócios, porque eu não posso vender? Logicamente que vou vender uma ampicilina bonificada, né!? Porque eu preciso sobreviver. O governo cobra imposto, eu tenho que pagar aluguel e um monte de coisas, tá?! Eu não vou dizer para o cliente: ‘Olha, eu tenho desse laboratório, só que custa mais caro. Vai ali na farmácia ao lado que você encontra do laboratório mais barato!’ Eu não vou dizer isso senão eu vou morrer de fome! Se o governo dá autorização para os laboratórios produzirem ampicilina cara ou sem qualidade, aí já não é mais da minha conta, né?! Essa política de nomes genéricos é mais um engano político! Nenhum laboratório vai cumprir essa lei, que exige que os medicamentos sejam testados para comprovar a eficácia, porque no Brasil as leis foram feitas para não serem cumpridas mesmo! Eu tenho essa farmácia há cinco anos e nunca veio um fiscal da vigilância sanitária aqui pra saber se os medicamentos que eu estou vendendo são verdadeiros ou falsificados!”

Em 70% de 160 farmácias acontecem troca enganosa

Conforme a pesquisa (leia a transcrição de trechos abaixo), em 70% das simulações da compra de medicamentos genéricos os balconistas e farmacêuticos substituíram os genéricos receitados por similares que nem ao menos passaram por testes de intercambialidade. Para piorar a situação, na maioria dos casos os balconistas e farmacêuticos trapacearam ao não informar ao “falso paciente” sobre a troca do genérico por similar bonificado. Conforme a RDC 58/2014, que regulamenta a venda dos medicamentos similares intercambiáveis, “é proibida a substituição do medicamento genérico da prescrição médica por similar”, mesmo que este seja comprovadamente intercambiável. O pior é que o paciente não tem como saber se o similar empurrado passou ou não por testes de equivalência e bioequivalência porque essa informação (quando existe) fica escondida do consumidor dentro da embalagem lacrada. Conforme determina a lei da Anvisa, o remédio similar que supostamente (apenas supostamente porque a Anvisa não faz testes para comprovar) realizou os testes exigidos pela Anvisa deve apenas constar na sua bula as palavras “Medicamento Intercambiável”.

Pesquisa foi originalmente realizada para o documentário “Medicamento bom pra otário: a rota das fraudes”

Munido com receita de uma prescrição para tratamento de infecção de garganta com alguns dos medicamentos genéricos mais receitados no país (Ampicilina 500 mg, Diclofenaco Potássico e Dipirona gotas, o pesquisador se passou por paciente para simular a compra dos medicamentos em farmácias do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal. Sempre era solicitado ao atendente o remédio genérico mais barato. Veja abaixo transcrição de trechos de algumas gravações:

Ao reclamar pelo anti-inflamatório oferecido não ser genérico o balconista diz: “Esse é o mesmo genérico! Não trabalhamos com outro porque esse é muito bom!”

Em outra farmácia o Diclofenaco Potássico genérico é trocado por similar e o balconista explica: “Eu ganho 10% de comissão pra vender os bonificados e só 5 % pra vender os genéricos. Seria muito melhor pra mim se não precisasse vender produtos bonificados, porque eles são mais caros e fica mais difícil para o cliente levar”.

O balconista de outra farmácia fica irritado ao reclamar do antibiótico por não ser genérico:“Só temos esse porque sabemos que presta, tá! Se eu tenho um produto bonificado que é bom, que dá mais lucro, qual que eu vou oferecer pra você? Porque eu vou vender um produto que dá menos lucro? Então é isso! Você leva se quiser, se não quiser não leva! Pra mim, tanto faz!”

Em uma farmácia o balconista explica porque fazem a troca do genérico pelos similares: “Aqui nós só trabalhamos com laboratórios bonificados mesmo! Só que o balconista tem que ser honesto e não fazer empurroterapia. É claro que se vem um cara com uma dor de barriga, eu vou dar um B.O pra ele! Isso você não tenha dúvida! Você pode tirar o seu cavalinho da chuva, porque isso nunca vai deixar de acontecer. Nenhum balconista vai deixar de vender um remédio bonificado pra vender um ético, que não paga bonificação! Nenhuma farmácia sobrevive sem vender bonificados. O B.O é bom! Eu sei que existem muitos laboratórios bonificados de porão, que só fazem maracutaias. Aqui nós só trabalhamos com bonificados bons, nunca que vamos vender do laboratório que você procura!”

Depoimento do balconista ao solicitar genéricos mais baratos: “Eu só tenho a ampicilina do EMS que é o laboratório que mais vende. Se o médico coloca nome genérico na receita, a gente vende do laboratório que trabalhamos. O importante é que todos têm o princípio ativo bom, porque não existe nenhuma diferença de qualidade entre os laboratórios. A tecnologia deles está equiparada. Não existe mais diferença entre os laboratórios. O laboratório que mais vende é o EMS!”

Opinião de outro balconista ao reclamar que o ampicilina e o anti-inflamatório oferecidos não são genéricos: “Mas o médico receitou a fórmula dos remédios e a gente tem desses laboratórios, que são a mesma coisa. Essa é melhor ampicilina que existe! Só é mais cara porque é melhor que as outras. Muitas delas só tem farinha dentro. Essa você pode confiar! E tem outra coisa: quando o médico receita com nome genérico, a gente vende do laboratório que trabalha. Não dá pra ter remédio de todos os laboratórios porque são mais de 300. Tanto faz o laboratório! Pode ser de qualquer um que são tudo a mesma coisa!”

Opinião de farmacêutica ao solicitar ampicilina do Pratti Donaduzzi por ser mais barata conforme pesquisa: “Eu não trabalho com o esse laboratório porque ele não presta!. Você quer qualidade? O que você é? O que você faz? Foi o médico que orientou você a procurar remédio desse laboratório? Deixa eu só te informar uma coisa pra você ficar ciente de como funciona uma farmácia. Você conhece a ampicilina do laboratório Eurofarma? Ela tem o nome comercial de Amplacilina… É a que menos vende, tá?! É a ampicilina que os médicos menos receitam! Sabe por quê? Porque o nome comercial é Amplacilina e a maioria das receitas vem escrito Ampicilina. Aqui na sua receita também o médico receitou Ampicilina, porque é a que mais vende! Todas as receitas vêm escrito assim. Eles gostam de receitar Ampicilina porque é melhor e custa menos que a Amplacilina. De cem recitas de Ampicilina, só duas vem escrito Amplacilina. Aí a gente vende do laboratório que tiver, que mais gosta de trabalhar. A farmácia é como outro comércio qualquer, que o profissional ganha comissão e procura sempre vender e ganhar mais. O comércio de medicamentos é a mesma coisa. Jamais a farmácia vai deixar de vender um produto que dá mais lucro pra vender outro que dá menos margem de lucro. Jamais!!! Por exemplo, aqui na sua receita o médico receitou Diclofenaco Potássico… Fica na nossa opção o que vamos dar. Agora quando os médicos receitam Cataflan, Profenid, Voltaren… É aí que tá o erro! Existem mais de vinte tipos de medicamentos que são diclofenacos potássicos. O diclofenaco potássico é um remédio só, e damos do laboratório que achamos melhor! Aqui na sua receita, o médico receitou Ampicilina, né?! Eu vou pegar do laboratório que trabalho, você aceita? Esse laboratórios que você está querendo eu não conheço, nunca ouvi falar dele. Talvez é um laboratoriozinho de fundo de quintal que produz sem qualidade. Por que um médico complica a vida da gente? Por que ele deixa essa opção para os clientes? Por que ele, que conhece, não receita uma Ampicilina e um diclonenaco qualquer e pronto?! Aí em cada farmácia que você for procurar vai ter um preço diferente. O que você vai acontecer? Uma farmácia vai jogar uma contra a outra e dizer que um remédio é melhor que o outro! Aí o cara que vai com a receita nas farmácias vai dizer: ‘esse médico é um canalha, ele não soube me atender direito!’ Por que isso? Porque se ele fosse um bom profissional, ele não ia recomendar nenhum nome de laboratório pra você. Ele vai deixar o laboratório por nossa conta!”

Opinião esdrúxula de balconista de outra farmácia: “Nós não trabalhamos com os produtos bonificados por que existem muitos laboratórios que não prestam. Se vem uma receita com nome genérico, nós só vendemos dos laboratórios que achar melhor. Só trabalhamos com produtos éticos! Nós não trabalhamos com B.O porque é falta de ética a farmácia ganhar pra vender determinadas marcas de remédios. E quem perde é o consumidor. Existem muitos laboratórios bonificados que são confiáveis, mas também tem muitos que não valem nada, que não tem a eficácia que os éticos têm! A questão da política de genéricos é muito complicada porque vai ficar mais fácil para os balconistas e farmacêuticos enganarem os consumidores trocando os genéricos receitados pelos médicos por produtos bonificados que podem ser de laboratórios de fundo de quintal, que produz sem qualidade e que falsifica medicamentos”.

                                                                

 

 

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