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Medicamentos genéricos das receitas são trocados de forma enganosa por similares bonificados

As leis que regem a prescrição, dispensação e a intercambialidade de medicamentos no Brasil são bem claras: os remédios genéricos das receitas não podem ser trocados por similares mesmo que sejam comprovadamente intercambiáveis.

No entanto, o medicamento genérico da receita está sendo trocado de forma enganosa (pois na maioria das casos o paciente não é informado pelo balconista ou farmacêutico sobre a troca) por similar bonificado na maioria das farmácias. A pesquisa realizada para o documentário “Medicamento bom para otário: a rota das fraudes” mostra que em 70% das 160 farmácias pesquisadas no Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília os balconistas e farmacêuticos empurraram similar bonificado no lugar do genérico prescrito pelo médico. O pior é que na maioria dos casos os similares oferecidos chegam a custar até três vezes mais que o genérico mais barato.

Diclofenaco Potássico genérico da receita é trocado pelo similar Clofen S que é três vezes mais caro: balconistas e farmacêuticos enganam ao fazer a troca poque empurram o produto bonificado como sendo “genérico”

O genérico não pode ser trocado por similar (veja pesquisa gravada com câmera escondida) mesmo porque a maioria dos similares existentes no mercado ainda não passaram por testes de bioequivalência e biodisponibilidade (que são testes que comprovam que o medicamento apresentam a mesma composição e fazem o mesmo efeito que os medicamentos de referência). Além do mais, mesmo os similares intercambiáveis (que já apresentaram laudos de supostos testes para a Anvisa) não apresenta na embalagem nenhuma informação da suposta intercambialidade.

Veja o que diz advertência do CRF-SP sobre a troca do medicamento genérico por similares bonificados 

Entenda a diferença entre os medicamentos:

Medicamento de referência: Os medicamentos de referência, também conhecidos como “de marca”, são remédios que possuem eficácia terapêutica, segurança e qualidade comprovadas cientificamente no momento do registro, junto à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Os grandes laboratórios farmacêuticos investem anos em pesquisas para desenvolver os medicamentos de referência. Geralmente são medicamentos com novos princípios ativos ou que são novidades no tratamento de doenças. A eficácia e a segurança precisam ser comprovadas mundialmente.

Medicamento genérico: são medicamentos que apresentam o mesmo princípio ativo que um equivalente de referência, ou seja, é uma cópia que se diz “perfeita” ao medicamento original. Na embalagem do remédio genérico tem que ter uma tarja amarela contendo a letra “G” indicativas de que o medicamento é genérico (veja na pesquisa gravada com câmera escondida a prática enganosa onde o genérico é trocado por similares bonificados). Os medicamentos genéricos podem substituir os medicamentos de referência da receita (geralmente são mais baratos) e nunca o similar pode substituir o genérico.

Medicamento similar: os similares são identificados pela marca ou nome comercial e supostamente (a Anvisa não realiza testes nem por amostragem para confirmar a formulação) possuem o princípio ativo, na mesma forma farmacêutica e via de administração dos medicamentos de referência. Também são aprovados pela Anvisa em comparação ao medicamento de referência. De acordo com a regulamentação da Anvisa, os medicamentos similares não podem ser substituídos pelos genéricos quando prescritos pelo médico.

Como não ser enganado na farmácia

A troca indevida e enganosa (quando o paciente não é avisado da troca do genérico por similar) por balconistas e farmacêuticos, como mostra a pesquisa, é prática antiética, desonesta e criminosa (conforme o Códio de Defesa dos Consumidores). Para se proteger, o consumidor paciente deve ficar atento ao comprar o medicamento.

A melhor forma para não ser enganado é o consumidor respeitar a prescrição do médico e não aceitar a substituição. E mesmo que aceite a troca, o paciente deve sempre pesquisar, no caso do medicamento de referência pelo genérico, se o remédio é mais mais barato.  Conforme mostra a pesquisa, a disparidade entre os preços é muito grande (a Ampicilina e por exemplo varia de R$ 19,00 a R$ 44,00, e o preço da Dipirona gotas (todas com 20ml) oferecida durante a realização da pesquisa variou de R$ 1,99 a R$ 10,00.

Desconfiança e pesquisa são melhores remédios

Em se tratando de medicamentos e da saúdo de quem vai utilizá-los, o melhor remédio, sempre, é o consumidor desconfiar dos produtos oferecidos nos balcões de farmácias e pesquisar ao menos em três diferentes estabelecimentos para ter opção de escolha entre preços e qualidade melhores.

Com a saúde não se brinca e o paciente consumidor deve estar sempre consciente de que no Brasil, devido a falta de fiscalização dos órgãos e instituições competentes, cerca de 20% dos medicamentos consumidos são falsificados (OMS) enquanto cerca de outros 20% fabricados por laboratórios conhecidos da Anvisa e testados por laboratórios oficiais são considerados “insatisfatórios” para o consumo.

Sobre os laboratórios, basta uma pesquisa rápida no portal da Anvisa (veja centenas de páginas com interdição) para consultar nomes de laboratórios que são reincidentes em erros ou fraudes na fabricação de medicamentos.

Balconistas e farmacêuticos recebem propina

Péssimo para os consumidores é que no Brasil o padrão para remuneração de balconistas e farmacêuticos é basicamene por remuneração. E o pior, é que os profissionais ainda são obrigados a bater ou cumprir metas de venda para ganhar bonificação extra. Obviamente que nessa política de bonificação ou propina quem perde são os consumidores (veja vídeo que denuncia o esquema). Risco para a saúde e prejuízo para o bolso do paciente é que a política da empurroterapia e da bonificação faz imperar a enganação nos balcões de farmácias com o favorecimento, pela troca, dos produtos de qualidade e origem duvidosa que pagam  propina maior.

Consumidores “são uns trouxas e tem que empurrar B.O mesmo”, diz gerente de farmácia investigada para documentário de farmácias que se transformou na distribuidora de medicamentos Santa Cruz
Veja o que disse o gerente de rede de farmácia (o depoimento foi gravado durante investigação para o documentário sobre fraudes no setor farmacêutico) sobre a prática da bonificação: “Tem que empurrar o B.O! É o B.O que dá  lucro!  Desde que seja pra ganhar comissão, eu vendo qualquer coisa! Não interessa quem vai tomar o remédio. Quero que se fodam! São todos uns trouxas!” . 
Bonificação e remédio bom pra otário

No jargão de farmácia a sigla B.O é a abreviação do termo ‘bonificado’ e designa os medicamentos que os balconistas favorecem a venda para receber comissão. Entre os balconistas de farmácia B.O tem ainda outros significados bastante pejorativos: significam também “bom para otário” e “bolso de otário”. Isso porque é unanimidade entre os balconistas e farmacêuticos de balcão de farmácia que muitas vezes os remédios bonificados, além de custarem mais que os medicamentos genéricos e da linha ética (outro jargão de farmácia o termo ético designa os remédios receitados pelos médicos e que não pagam propina) ainda têm procedência e qualidade duvidado. Basta uma rápida pesquisa no Canal Farmáfia para descobrir a enorme quantidade de medicamentos falsos e laboratórios clandestinos que são descobertos com frequência no Brasil.

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